Bolo de maracujá

O bolo de laranja de Lu, minha irmã caçula e melhor boleira da família, tem fama internacional. Ele é maravilho, mesmo, mas há anos guardo em segredo a receita de um bolo ainda mais maravilhoso (pra mim!).

Um dia em não tinha laranja, mas tinha maracujá, e resolvemos arriscar. Confesso que não lembro se a ideia foi minha ou de Lu (ou das duas), mas o que importa é que o resultado ficou um espetáculo! Desde então começamos a fazer bolo de maracujá com frequência. Hoje confesso que além de achar esse bolo ainda mais saboroso, o fato do cultivo da laranja ser um dos campões no uso de agrotóxicos (não encontrarmos laranja orgânica por aqui) faz com que eu prefira fazer bolo de maracujá quando estou em Natal. 

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Hummus cubano

Durante essa temporada em Natal minha irmã Lu (a do melhor bolo de laranja do mundo) me apresentou uma receita da pasta de grão de bico com amendoim que passou a aparecer com muita frequência no meu café da manhã. Lu a chama de “hummus cubano”, pois aprendeu a fazer essa pasta em Cuba. Lá as pessoas contaram que como tahina (pasta de gergelim) é rara e cara, elas usam um ingrediente abundante na ilha: amendoim. Daquelas ideias geniais que fazem você pensar: “Por que eu não pensei nisso antes?” Obrigada, compas cubanas!⠀

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Bolo de carimã com goiabada

Conversando com a senhora que vende macaxeira na feira que frequento aqui em Natal, descobri que na padaria do bairro dela tinha bolo de carimã. Pedi a receita, mas ao invés disso ela disse que poderia conseguir a carimã com um senhor que também vendia macaxeira. Como eu tentei fazer carimã em casa e não tive sucesso, fiquei empolgada com a possibilidade de ter acesso a esse ingrediente tradicional. Se você não conhece, carimã, também conhecida como puba, é macaxeira (mandioca) fermentada. Dá pra fazer muitas coisas com ela e como eu trouxe 1kg pra casa pude testar panquecas (só a massa com sal, cozinha na frigideira) e mingau (me levou de volta pra infância, quando minha mãe fazia mingau de goma pra nós). Mas eu queria mesmo era o tal do bolo, que nunca tinha provado, mas imaginava ser uma iguaria. Veja, bolo de macaxeira é o meu preferido e como adoro comida fermentada, a união dessas duas coisas tinha tudo pra me seduzir. E ela não me decepcionou!

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Quando a “comida” de origem animal acabará no lixo, a vegana a come pra evitar desperdício?

Eu recebo muitas perguntas pelo Instagram e algumas semanas alguém me perguntou o que eu acho de pessoas veganas consumirem alimentos de origem animal que seriam desperdiçados. Ela citou o caso (hipotético) de uma vegana que trabalha em um restaurante não-vegano e que, no final de cada expediente, tem a possibilidade de levar as sobras do dia pra casa. Caso funcionárias não queiram levar a comida pra casa, ela irá pro lixo. E aí? Nesse caso eu comeria os restos de origem animal pra evitar desperdício? 

Primeiro vamos combinar que é uma pergunta bem específica. Quantas pessoas veganas estão nessa situação? Não cola dizer: “Eu não posso ser vegana porque vivem me dando animais e seus derivados e se eu não comer vai pro lixo.”

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Sobre leite de amêndoas, a morte de bilhões de abelhas e onde entra o veganismo nessa história

No início do ano uma pessoa que acompanha o meu trabalho no Intagram mandou uma pergunta que era mais ou menos assim: “Um amigo criticou o veganismo porque nos EUA as populações de abelha estão morrendo por causa do cultivo intensivo de amêndoas pra fazer leite vegano. É verdade? O que responder?”

Naquele momento eu fiz uma anotação mental pra tratar desse assunto e como recentemente saiu a terceira parte do vídeo que fiz com Ellen Monielle sobre ativismo de mercado e mencionei a situação das abelhas nesse contexto, achei que o momento era ideal pra aprofundar essa questão. 

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Como fazer cuscuz (com coco)

Aproveitando que estou no meu país, o Nordeste, vou compartilhar algumas receitas daqui. Começando com uma das mais simples, o café da manhã de todo dia aqui (pelo menos na parte do Nordeste onde me encontro): cuscuz.

É muito simples e rápido, mas muitas pessoas ignoram 2 coisas essenciais: hidratar o fubá antes de cozinhar e finalizar o cuscuz com um líquido quente e um pouco de gordura. Aqui vai o passo-a-passo.

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Ainda sobre ultraprocessados vegetais de grandes empresas: o veganismo está ganhando?

A terceira maior empresa produtora de leite animal na França acaba de lançar uma linha de leites vegetais. O veganismo está ganhando?

Fiz essa pergunta às pessoas que me acompanham no Instagram e o resultado foi o seguinte: 91% das pessoas responderam que não, 9%, que sim.

Essa empresa, que se chama Candia, faz parte do grupo Sodiaal, o número 3 na produção de leite de vaca na França e número 16 no mundo. São 4.7 bilhões de litros de leite de vaca comercializados por ano, de acordo com o site da empresa. Isso representa um número gigantesco de vacas exploradas pelo seu leite, cujos corpos serão vendidos como “carne” no final da vida, assim como os corpos de seus bezerros machos, um perverso “sub produto” da indústria que explora mamíferas pelo seu leite. Então pra ser uma “vitória pros animais”, o lançamento do leite vegetal da marca deveria diminuir o número de vacas exploradas e torturadas por Candia, certo? 

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Farofa de beterraba

Saí da quarentena (que na verdade era uma dezena) ontem, estado no qual tive que ser colocada depois de ter feito uma longa viagem de avião cruzando o Atlântico. E além de ter esperado os dez dias, só me senti segura pra ter contato com a minha família depois de ter feito um teste pra ter certeza que não estava com covid. Minha mãe é idosa e tem a saúde frágil, então precisamos levar o protocolo sanitário a sério.

E assim que fui liberada, corri pra cozinha.  Ontem fiz uma moqueca de caju que merece aparecer por aqui, mas antes de compartilhar essa receita vos ofereço uma ainda mais simples: farofa de beterraba. Depois que me reconciliei com a farofa, a argamassa da vitória (e da revolução proletária, pelo menos no Brasil), não perco uma oportunidade de preparar, comer e compartilhar esse prato. E essa aqui eu  aprendi com minha irmã Lu (a do bolo de laranja), que por sua vez conseguiu a receita com uma amiga.

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24 horas na periferia de Paris

Estou há alguns dias no Brasil, isolada do resto da família, enquanto respeito a quarentena necessária pra quem passou por três aeroportos em três países diferentes numa viagem de 24 horas. Mas antes de trazer os posts desse blog pra essa nova realidade, gostaria de descrever um dos meus últimos dias antes de viajar. Talvez você imagine que, por morar em Paris, meu cotidiano seja bem diferente de quando eu morava na Palestina e trabalhava em um campo de refugiados. A verdade é que posso ter mudado de país, mas o compromisso com a luta, principalmente com as pessoas refugiadas, migrantes e exiladas, não mudou. Isso é, pra mim, o internacionalismo nos dias de hoje. Pra entender melhor minha realidade de estrangeira do Sul global, morando na periferia de Paris, aqui está o relato de 24 horas na minha vida, da noite da última segunda à noite da última terça.

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O conceito de mistura

Uma das perguntas que escuto com mais frequência é: “Como substituir a carne?” Geralmente feita por pessoas que estão pensando em diminuir ou parar de comer animais, ela diz respeito ao aspecto nutricional da refeição. O que a pessoa está perguntando, na verdade, é: “O que preciso comer no lugar da carne pra ter acesso aos nutrientes que antes eu conseguia através dela?”

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“Quando penso em veganismo, penso em justiça”

Em julho eu contei que tinha voltado a entrevistar pessoas veganas, algo que comecei muitos anos atrás, aqui no blog. Mas dessa vez faço apenas três perguntas e entrevisto somente pessoas que não são brasileiras, pois o objetivo é mostrar que o veganismo lá fora segue forte como movimento político, apesar do veganismo liberal de ONGs e influenciadoras tentar nos convencer do contrário.

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Sobre racismo no movimento vegano

A história de hoje é sobre:
-racismo
-veganismo
-leis que dizem proteger animais, mas que na verdade buscam marginalizar ainda mais minorias sociais
-como um país idolatrado pela comunidade vegana por ser o lar da maior comunidade veg no mundo está abandonando o vegetarianismo
-como nesse mesmo país, que tem reputação de ser um templo de não-violência, uma parte da população está linchando uma minoria social em nome da “proteção das vacas”
-e o que isso tem a ver com todo o resto.

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Por que pessoas deixam de ser veganas?

Há muitos anos me faço essa pergunta e depois de muita pesquisa e reflexão acabei descobrindo que a resposta é complexa.

Em 2014 o Human Research Council fez um estudo com ex vegetarianas/veganas (vou escrever “vegs”, pra encurtar) pra tentar entender por que pessoas abandonam o vegetarianismo/veganismo. O estudo foi encomendado pra tentar entender esse fato alarmante: 84% das pessoas que se tornaram vegs voltam a comer animais. É essencial entender as razões por trás disso se quisermos construir um movimento antiespecista eficaz. Foram 11 mil ex vegs entrevistadas e a lista de razões que as fizeram deixar de ser vegs é longa, mas as principais são de ordem social. A razão principal (apontada por 84% das entrevistadas) foi “não participar ativamente de grupos vegs”, seguido de “não gostar de ser visto como diferente por ter dieta veg” (63%), “não ver vegetarianismo/veganismo como parte da identidade” (58%) e “não ter interações suficientes com outras vegs” (49%).

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Sobre racialização e as armadilhas coloniais

Dia 4/07 aconteceu a Parada Política do Orgulho LGBT+ em Paris. A Parada política existe justamente pra protestar contra a Parada oficial, patrocinada por bancos e cartões de crédito, que transformou esse dia tão importante, onde ocupamos as ruas pra honrar a memória das que lutaram antes de nós e continuamos a luta por direitos LGBT+, em uma festa despolitizada pra celebrar o pink money.

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A peste de Camus, o teste Bechdel e o que isso tem a ver com todo o resto

Adoro ler e apesar de não dedicar o tempo que gostaria à leitura durante o dia, dou cabo de uma modesta pilha de livros mensalmente, pois só consigo dormir depois de ler por pelo menos uma hora na cama. A pessoa que estiver dividindo a cama comigo que lute pra dormir com o barulho das páginas sendo viradas (bem discretamente, juro).

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Sobre leite condensado, queijo e o que o veganismo tem a ver com isso

Dias atrás eu estava comendo as primeiras cerejas do ano e lembrei de um causo que aconteceu comigo há mais de 15 anos. Isso me fez refletir sobre algumas coisas, que se juntaram à uma reflexão que nasceu quando eu trabalhava numa queijaria vegetal em Berlim e passava meus dias entre bactérias e leveduras. (Comida também alimenta o pensamento.)

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A fórmula da farofa + a farofa de cenoura da minha família

Uma etapa essencial pra quem quer aprender a cozinhar (se você vier desse território colonizado conhecido como Brasil) é saber fazer farofa. Extremamente simples, mas que faz toda a diferença na vida da cidadã, ela alegra o prato e é a melhor amiga do feijão. Aliás, deixa eu contar uma das minhas opiniões mais impopulares: não gosto de arroz. Por isso prefiro casar meu feijão com farofa e ignorar o pobre arroz, o que nunca deixa de provocar surpresa nas vizinhas de mesa. Farofa, como dia minha amiga Maria Helena, é a argamassa da vitória!

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Quem dita as regras do veganismo?

Uns meses atrás publiquei uma série de stories no meu Instagram (os jovens não leem mais blogs, infelizmente) sobre a tendência dentro do movimento vegano de eleger algumas vozes como mais legítimas pra “definir o que é vegano” do que outras e considerar a posição de grandes ONGs internacionais como “oficial”, classificando as visões diferentes como “opinião pessoal”.

É um debate que precisa ser feito, então vim trazer a conversa pra esse espaço também.

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