Ano passado a chef Paola Carosella causou um grande alvoroço dentro da comunidade vegana por causa da reação dela (via Twitter) depois de ter provado um hambúrguer vegetal que imita a textura e o sabor de carne animal. Acho oportuno abrir espaço pra discutir as declarações dela, pois acredito que podemos extrair algumas lições importantes do ocorrido.
Continuar lendo “Por um veganismo que promove autonomia alimentar”Categoria: Outros
Grão na chapa
Gosto de pensar que sou uma pessoa modesta. Recebo elogios de bom grado, mas não saio por aí “contando vantagem”, como a gente diz na minha terra (se você precisa de tradução, essa expressão significa “fazendo elogios, não merecidos, a si mesma”). Mas de vez em quando eu desenvolvo uma receita que me faz inchar de orgulho. Mais ainda quando não se trata de uma receita propriamente dita, o que envolve vários ingredientes, muitos testes e muita louça pra lavar antes de chegar na versão final, a que compartilho aqui no blog. Isso é um trabalho que necessita criatividade, obviamente, mas é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, como dizem que disse Einstein. Agora, quando a “receita” em questão é uma ideia que brotou na minha cabeça, puf!, que necessita apenas 2 ingredientes e que deu certo de primeira, aí eu não consigo conter o entusiasmo (se você estivesse do meu lado nesse momento me veria dando um discreto beijinho no ombro).
Continuar lendo “Grão na chapa”Farofa rica
Em setembro confessei aqui no blog a minha recente história de amor com a farofa e compartilhei a receita da minha farofa mais popular.
Mas isso não é exatamente verdade. Sim, minha farofa de banana e couve é extremamente popular na minha família, mas um dia fiz uma versão ligeiramente modificada dessa receita e o sucesso foi ainda maior. Chamei essa obra-prima comestível de “farofa rica”.
Continuar lendo “Farofa rica”Novas datas de tour em Paris
Lembram dos tours político-veganos em Paris? Em 2020 eles voltarão com força total. Até criei uma página aqui no blog pra explicar melhor a proposta. Convido as pessoas interessadas a darem uma olhada lá pra entender melhor a proposta desse projeto.
Continuar lendo “Novas datas de tour em Paris”Como comecei a cozinhar
Escrevi meu primeiro caderno de receitas com onze anos, mas comecei a cozinhar bem antes disso. Minha mãe, que nunca gostou de cozinhar, nos encorajou a fazer nossa própria comida desde muito cedo. As receitas do caderno eram de apenas um tipo: recheios pra colocar dentro do pão ou tapioca, todos variações de ovo mexido. Lembro que a única receita que não envolvia ovo era ‘pão frito’: pão em cubinhos, frito em muita, muita margarina. Embora não tivesse entrado no caderno, meu repertório da época também incluía bolachas cozinhadas no leite, papa de aveia com canela, vitamina de banana com achocolatado e, em um momento onde eu me senti particularmente gourmet, patê de salsicha e cebola crua, criado em colaboração com uma prima.
Continuar lendo “Como comecei a cozinhar”Tostada de chuchu
Ainda não é oficialmente inverno no hemisfério norte (o solstício de inverno é no dia 22 de dezembro esse ano), mas as noites já estão mais longas que os dias, o frio já se instalou e a luz natural já está fazendo falta. E isso tem um efeito interessante no meu apetite. Por um lado desejo comidas quentes e pesadas (sopa, muita sopa! creme!!!), pra aquecer o estômago e me proteger do inverno. Mas ao mesmo tempo sinto falta das frutas e verduras que crescem no calor, principalmente as da minha região no Brasil. É um fenômeno curioso, esse. Ao mesmo tempo que meu corpo demanda sopa e cogumelos, minha cabeça não para de pensar em abacaxi, quiabo e mamão.

Islamofobia e por que se opor a esse tipo de racismo é uma pauta feminista
Duas coisas estão me revoltando profundamente aqui na França: o tratamento dado a migrantes/refugiados e a islamofobia. Pretendo falar sobre a questão de pessoas migrantes outro dia, porque essa militância está ocupando boa parte do meu tempo aqui. Mas hoje queria chamar vocês pra uma conversa sobre islamofobia. Pode parecer algo distante de nós, ou talvez você tenha uma visão negativa de pessoas muçulmanas, mas continue lendo que você vai entender por que essa questão não só é importante pra nós, como é também uma questão feminista.
Continuar lendo “Islamofobia e por que se opor a esse tipo de racismo é uma pauta feminista”“A solução não passa pelo capitalismo. Ela o derruba.”
Em pouco mais de um mês tivemos três grandes eventos veganos aqui em Paris. Se não me engano os três maiores do ano. Estive nos três, porque quero descobrir como o movimento vegano está se organizando aqui. Me tornei vegana quando ainda morava em Paris, em 2007, mas na época veganismo na França era algo praticamente desconhecido e não tinha eventos nem encontros veganos na capital.

Tour gastronômico em Paris
Lembram do tour gastronômico que organizei em Paris ano passado? Agora que voltei a morar aqui, esse projeto vai fazer parte das minhas atividades profissionais regulares. A ideia é fazer tours organizados duas vezes por ano (no inverno e na primavera), mas quem estiver de passagem pela cidade fora dessas datas terá a possibilidade de me contratar por um dia (ou mais) em um tour privê.
Continuar lendo “Tour gastronômico em Paris”Exercício de economia doméstica
Estava na rua resolvendo coisas e voltando pra casa decidi passar pelo mercado de produtos orgânicos que fica no caminho, já que a geladeira estava vazia. Acontece que eu só tinha 15 euros na bolsa, o que aqui não é grande coisa. Comprar comida pra semana, pra duas pessoas, com um orçamento tão limitado seria um exercício interessante de economia doméstica. A verdade é que não tenho trabalho remunerado no momento e preciso mesmo manter as despesas sob controle. Mas a Pollyanna que mora em mim viu aquilo como uma oportunidade pra ser mais criativa na cozinha.
Continuar lendo “Exercício de economia doméstica”Onde eu deveria estar
Faz um mês que cheguei em Paris. É estranho falar “cheguei” porque se trata de uma volta, mas ao mesmo tempo será que posso falar de volta quando deixei essa cidade 11 anos atrás?
Chegada/volta que foi estranha nos primeiros dias, principalmente porque eu estava vindo do Brasil e o choque de realidades é sempre grande. Mas bastou a primeira semana passar que já parecia que eu nunca tinha saído daqui.
Continuar lendo “Onde eu deveria estar”Vinagrete de coco
Cheguei em Paris no início de setembro, mas só agora, quase quatro semanas depois, pude desfazer a mala, me assentar e ter a sensação de ter, enfim, chegado. É uma longa história que contarei outro dia.
Estou vindo do Brasil, onde, pelo segundo ano consecutivo, fiquei três meses inteiros, combinando férias, visita à família e trabalho. E assim como em 2018, viajei bastante pelo Brasil, participei de eventos muito bacanas, encontrei pessoas incríveis e juntei forças com quem está articulando a revolução por lá. Também tenho muito o que contar sobre a passagem pelo Brasil esse ano, mas também vai ficar pra outro post. Hoje eu vim compartilhar mais uma receita que fez sucesso com a minha família durante as férias.
Continuar lendo “Vinagrete de coco”Engrossar o fino, esfriar o quente e aumentar o pouco
Meus pais, nascidos e criados no Sertão potiguar, devem sua sobrevivência à farinha de mandioca. Um dia minha tia Luísa, irmã caçula do meu pai, me explicou que quando ela era criança a família guardava a farinha num baú. “Quando ele estava cheio, a gente sabia que tinha comida por pelo menos três meses.” Perguntei o que ela comia naquele tempo. “Cuscuz de manhã, com o milho que a gente moía, feijão macaça com farinha no almoço e à noite mais feijão com farinha, ou um pedaço de rapadura com farinha.” Minha mãe também me contou do pirão de óleo que fazia pro almoço das irmãs e irmãos, quando meus avós estavam no roçado e não tinha mais nada pra comer. A receita? Água fervente, um pouco de óleo, sal e a bendita farinha.
Continuar lendo “Engrossar o fino, esfriar o quente e aumentar o pouco”O final de um ciclo
Aquela ideia extravagante que tive em 2014, que era pra ter sido um evento único, deu tão certo que acabou se repetindo por cinco anos. Nem acredito que já faz cinco anos que o projeto de tours político-ativista-vegano-feministas na Palestina nasceu e que pude viver essa aventura com dez grupos de brasileiras (no último até teve duas participantes da Austrália).
Continuar lendo “O final de um ciclo”A revolução será fermentada
Isso explica o silêncio por aqui. Estava fermentando a revolução. Faz uns meses que estou trabalhando em um projeto incrível (Cashewbert), criado por um rapaz muito bacana, Anderson, que acontece de ser brasileiro, ajudando a desenvolver queijos veganos que usam as técnicas e as bactérias da queijaria tradicional. As últimas semanas foram intensas, pois estávamos nos preparando pra abertura da primeira queijaria vegana de Berlim. Kojiterie abriu sexta passada e fica na Hohenstaufenstraße, 39 (Berlim). Por enquanto só funciona às sextas e sábados. Se dez anos atrás me dissessem que um dia existiriam queijarias veganas (já tem algumas mundo afora) e que eu faria queijos veganos em Berlim… eu provavelmente teria tido a mesma reação tive agora, uma mistura de encantamento com empolgação com esperança. O futuro é verde, meu povo (de planta e de mofo), e está ficando cada vez mais delicioso.
Continuar lendo “A revolução será fermentada”Tour gastronômico vegano em Paris
Eu me tornei vegana dez anos atrás, em Paris. A cidade luz foi meu lar durante 6 anos, onde fiz toda a faculdade e um pedaço do mestrado (sou formada em Linguística). Não era fácil ser vegana por lá naquela época e pouca gente sabia o que a palavra significava. Mas minhas razões eram profundas e morar na terra do queijo e do croissant (com manteiga) não me impediu de alinhar as minhas escolhas alimentares com os meus valores, mesmo se o único lugar onde eu podia comer era na minha própria cozinha. Nunca eu imaginaria que dez anos depois o veganismo faria parte da paisagem gastronômica parisiense. Mas o que eu imaginava ainda menos era que um dia eu iria organizar tours gastronômicos na cidade que tanto torceu o nariz pro meu veganismo.
Continuar lendo “Tour gastronômico vegano em Paris”Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais
Eu conheci Ahmad Safi, um dos fundadores da Palestinian Animal League (PAL – Liga Animal Palestina), em 2015. Sou uma grande admiradora do trabalho que a PAL, a primeira Organização de Proteção aos Animais atuando dentro dos Territórios Palestinos Ocupados, está fazendo e tinha vontade de entrevistar Ahmad desde então. No final de abril deste ano, finalmente marcamos uma data e nos encontramos na hora do almoço no Sudfeh, o primeiro restaurante vegano/vegetariano da Palestina, localizada na Universidade Al Quds, em Abu Dis.
Continuar lendo “Defendendo a Palestina: libertando o povo, a terra e os animais”Mateus
Uns anos atrás eu entrevistei minha amiga Bárbara Bastos, que mora em Recife, como parte de uma mini série sobre alimentação saudável pra crianças. Se você ainda não leu as entrevistas, recomendo muitíssimo. Elas oferecem a perspectiva de três mulheres que se alimentam de maneiras diferentes (onívora/macrobiótica, vegetariana e vegana), com estilos de vida variados e que moram em cidades (países!) diferentes, mas que têm uma coisa em comum: decidiram oferecer uma alimentação integral e natural pros seus filhos. Se você acha que é impossível criar uma criança sem ‘danoninhos’, achocolatados, queijos processados, sucos de caixinha e biscoitos entupidos de açúcar e produtos químicos, as explicações delas farão você mudar de opinião. Elas mostram com exemplos concretos que é totalmente possível e que o impacto na saúde da criança é tão grande que faz a mudança valer muito a pena, apesar das dificuldades. Pra ler as entrevistas clique aqui, aqui e aqui.
Continuar lendo “Mateus”9 de junho
Continuo em Berlim, mudando de casa em média a cada três dias, me sentindo um macaquinho pulando de galho em galho. Só que de bicicleta e com uma mochila nas costas. Quando eu conseguir achar um apartamento que corresponda aos nossos critérios de busca vou beijar o chão, que nem o papa fazia.
Como minha vida está uma bagunça, está difícil manter o formato dos meus posts (história + receita), pois não ando cozinhando muito em casa. O post de hoje será diferente e picotado, como o momento que estou atravessando.
Continuar lendo “9 de junho”Em Berlim
Chegue em Berlim há uma semana. Vim tentar morar aqui. Digo “tentar” porque morar é uma ação que exige compromisso e ainda não sei se posso me comprometer com essa cidade. Ou se a cidade vai querer se comprometer comigo. Espero que sim, pois estou cansada de arrastar minha mala mundo afora e ficaria muito feliz em me aquietar um tempo. Cultivar ervas na janela, essas coisas.
Por que Berlim? Porque começa com a letra “b” e até hoje só moramos juntas, Anne e eu, em cidades que começam com “b”: Belém (Palestina), Bruxelas, Beirute. A razão verdadeira da mudança não é muito mais convincente, então fiquemos com essa.
Estou me sentindo uma alma penada, tanto por estar vagando pela cidade sem sentir que pertenço ao lugar (por enquanto!) quanto pelo fato de ter que mudar de casa a cada três dias, pois ainda não encontramos um lugar pra chamar de nosso e estamos contando com a solidariedade e generosidade das amigas que nos oferecem teto provisório.
Volto em breve, com informações mais interessantes e uma receita muito boa.
(Foto do brunch do café da esquina, onde 90% do bufê é vegano. Sim, até os croissants!)